Depois que resolvi olhar pela janela do escritório, nesta tarde de terça, percebi que estava tarde; havia me perdido por entre os papéis que li e reli não sei quantas vezes, só pra ter certeza de que meu tempo não estava, de todo, desperdiçado. Não era de me atrasar nas "peladas" marcadas toda a semana com os amigos da época de colégio, hoje não seria diferente; levantei-me pegando o que me acompanharia até minha casa como chave do carro, celular e o resto do café que não me fez tirar o cochilo da tarde em cima dos papéis.
Não sei o que me deu quando, ao invés de entrar no carro, fitei o vazio e escolhi ir andando pra casa; hoje estava sendo diferente. Um, dois, seis relâmpagos seguidos, e o vento frio trouxe uma chuva onde os pingos faziam minha pele arder; virando a esquina do segundo quarteirão, senti um cheiro oposto ao de terra molhada... Era ela, não sabia quem, mas sabia que só podia ser ela! Pisquei duas vezes no mesmo instante em que não dei mais passo algum; estávamos parados, nós dois, sem dizer absolutamente nada. Respirei fundo e mais próximo dela, fiquei; ela balbuciou palavras como "sei que te conheço sem saber de onde", e eu gaguejei outras como "sei que és minha sem saber por que". Meu celular berrava por minha atenção, provavelmente os amigos me chamando para a "pelada"; ao invés de atendê-lo, encostei minhas mãos cálidas na bela palma da mão quente que ela tinha, aproximei meu rosto do dela e, sem hesitar, ela correspondeu quando rocei meus lábios nos dela.
Mas não, no instante piscado após ficar minutos a fio parado, olhando pra ela, entrei no carro de um amigo que achou minha demora estranha demais; não tive todas aquelas sensações alucinantes ali, naquela hora, pois passou-me pela mente a ideia de que ela poderia não ser mais ela muito depressa; hoje poderia ter sido diferente.

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